PASSAGEM

Coleciono belas imagens da década de 1970. Cenas de infância, paisagens do Rio Grande do Sul. Lembro da brasília bege subir a serra nas férias de inverno. No trajeto, uma membrana, uma fina tessitura. Uma névoa ao mesmo tempotranslúcida e branca perolada, e que ia abrindo caminho, à medida que avançávamos com o carro. Depois, o estampido nos ouvidos. Mas esse não era percebido de imediato, diante de tanto encantamento bosque e bruma. Quando atingíamos o topo, e o estampido desaparecia, só aí nos dávamos conta de que nossa audição ficara como que suspensa por um tempo. Nessa mesma hora, a membrana já havia se dissipado, dando lugar a um sol brilhante e ameno. Chegava então a vez das majestades cobrirem um lado e outro da estrada. Esguias, elas se enfileiravam, tronco após tronco, fazendo questão de mostrar o quanto eram esbeltas. Seus braços ascendentes, só bem lá no alto erguiam ao céu galhos e folhas, o que lhes dava uma aparência assimétrica. Eram generosas. No verão, lançavam ao solo milhares de pinhos, que em minhas mãos de criança se transformavam em príncipe e princesa, castelo e carruagem. Anos depois da década de 70 fiquei sabendo que aquelas beldades, formosas e maduras como as rainhas, formavam a Floresta das Araucárias. Dela, também me contaram, restou 7 % de tudo que já existiu um dia.
Escrito por liniane às 22h45
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